quinta-feira, 17 de abril de 2014

Fora Yanukovich! Nem UE nem submissão a Putin!


Escrito por I. Razin e R. León   

As imensas mobilizações populares na Ucrânia, iniciadas no final de novembro passado, conquistaram suas primeiras vitórias parciais. No dia 28 de janeiro, a Rada Suprema (parlamento) se reuniu em caráter de urgência para anular as draconianas leis repressoras que ela mesma, a pedido do presidente Víctor Yanukovich, do direitista Partido das Regiões (PR) e com apoio parlamentar do Partido Comunista, havia aprovado, menos de duas semanas antes, com o objetivo de frear os protestos. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro Mykola Azarov anunciou sua demissão, desencadeando a queda de todo seu gabinete.

Há mais de dois meses a situação está marcada por uma extrema instabilidade política. Milhares de pessoas, com temperaturas de 23 graus abaixo de zero, ocupam as principais ruas de Kiev e cerca de dez mil acampam na Maidán, principal praça da capital e atual centro nevrálgico dos protestos contra o governo de Yanukovich. A abolição das leis repressoras radicalizou ainda mais os protestos e abriu um novo momento no conflito.

O saldo da brutal repressão policial é de pelo menos cinco mortos e centenas de feridos e presos políticos. Os manifestantes bloquearam as principais estradas e iniciaram uma onda de ocupações de ministérios e edifícios públicos em 14 das 25 províncias do país, abrindo um processo de aproximação com as manifestações no leste do país, onde ocorreram protestos e confrontos em Zaporoyie (leste) e Dniepropetrovsk (centro-este) [1].

Vale mencionar que existem diferenças culturais marcantes, históricas e políticas entre o oeste e o leste da Ucrânia. A região leste é mais industrializada, fala o idioma russo e é onde Yanukovich tem sua maior base de apoio social em comparação com a região ocidental, mais rural, de idioma ucraniano e maiores conexões culturais com a Europa. Este início de “nacionalização” dos protestos começa a gerar uma situação ainda mais preocupante para o poder da burguesia local e os interesses estrangeiros radicados no país.

A anulação das leis repressoras e a queda do gabinete significam uma importante vitória da mobilização popular contra um governo repressor, entreguista e oligárquico. Mas o poder se mantém nas mãos de Yanukovich e da repugnante oligarquia ucraniana, sempre disposta a vender-se aos abutres, tanto russos como europeus. Por isso, esta vitória deve ser um ponto de partida para continuar a ofensiva do povo explorado, que acabe derrubando o governo, liquide o poder dos oligarcas e coloque a economia do país nas mãos da classe trabalhadora, conquistando a absoluta e definitiva independência do país.
 
Yanukovich não se dará por vencido. Tenta e continuará tentando desmobilizar a Maidán. E se não conseguir, a alta cúpula do Exército ucraniano (o segundo maior da Europa depois do russo) já comunicou que intervirá para “estabilizar a situação no Estado” e recompor a “concórdia social”, pois declara “intolerável” a ocupação de edifícios públicos. “Os altos cargos e os funcionários do Ministério da Defesa apoiam o presidente da Ucrânia no que se refere à necessidade de estabilizar a situação no Estado”[2]advertiram os generais.

Diante dessa situação, é urgente que a esquerda internacional assuma uma posição de inequívoco apoio às mobilizações, combatendo a direção burguesa e pró-imperialista, assim como os setores de ultradireita e neonazistas que tentam controlar o processo; ao mesmo tempo, é necessário expressar um claro repúdio às ameaças dos militares de reprimir o movimento da praça Maidán.

Entre a opressão do chauvinismo russo e a do imperialismo

A Ucrânia, ex-república soviética, atualmente com 45 milhões de habitantes, sempre sofreu a opressão nacional por parte da Rússia. Antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Ucrânia era dominada pelos impérios austro-húngaro e russo, e cabia à vil autocracia czarista, o controle da maior parte do seu território. Com a vitória da revolução socialista russa de 1917, o país conquistou um período de independência, até que em dezembro de 1922 foi uma das repúblicas fundadoras da antiga União Soviética (URSS).

Durante a década de 1920, antes da consolidação da burocracia stalinista no poder, os bolcheviques tiveram uma política de respeito aos direitos nacionais ucranianos, que se expressou em um florescimento da arte e da cultura e no uso amplamente permitido do idioma local (antes proibido pelo czarismo). Os primeiros anos da URSS foram também os de maiores conquistas quanto a direitos sociais relativos à saúde e educação públicas, moradia, acesso à terra e direitos das mulheres.

No entanto, no final dessa década e início de 1930, a burocracia comandada por Stalin atacou brutalmente todas essas conquistas, como parte da contrarrevolução política triunfante na URSS. O Kremlin negou o direito de autodeterminação nacional, garantido à Ucrânia pela Revolução de Outubro, e passou a exercer uma crescente opressão nacional. A coletivização forçada empreendida por Stalin, por exemplo, atingiu de forma brutal os camponeses ucranianos. O Exército Vermelho confiscava terras e grãos e impunha metas de produção inalcançáveis aos camponeses, que não recebiam grãos e nem alimentos se não as cumprissem. Esta política brutal levou, durante essa década, à fome generalizada em todo o território soviético e, somente na Ucrânia, morreram mais de cinco milhões de camponeses.

No mesmo período, a grande perseguição dos Processos de Moscou (1929-1934 e 1936-1938) também afetou enormemente a população ucraniana, especialmente a oposição política, a intelectualidade e os artistas. Calcula-se que durante os processos foram assassinados milhares de oposicionistas ucranianos. De fato, dos mais de cinco milhões de prisioneiros levados à morte nos campos de concentração stalinistas (Gulags) na Sibéria, pelo menos 20% eram ucranianos.

Esses são apenas alguns dos fatos que demonstram que a opressão nacional exercida pela Rússia sobre a Ucrânia, que remonta ao império dos czares e passa pelo regime do terror stalinista, é um elemento central para entender as causas da situação atual.

Por outro lado, a crise atual, que tem essas raízes mais históricas, também é explicada pelo brutal processo de colonização ao qual a Ucrânia foi submetida desde a restauração do capitalismo em todo o leste europeu.

Nestes mais de 20 anos, a Ucrânia passou por um processo tremendo de desindustrialização e desnacionalização de sua economia, com um aumento enorme dos investimentos estrangeiros e, consequentemente, da dívida externa com o imperialismo – fundamentalmente europeu – e pela dependência ao preço do gás imposto pela Rússia.

Com a restauração capitalista, a antiga burocracia governante tornou-se multimilionária, beneficiando-se das privatizações selvagens em todos os setores da economia. Assim se constituiu uma oligarquia mesquinha, corrupta e com a firme decisão de governar seu “feudo” com mãos de ferro. Essa oligarquia burguesa hoje detém enormes complexos industriais e financeiros. Além disso, existe outra característica da elite ucraniana: o entreguismo. Setores da burguesia têm seus negócios mais voltados nas relações com a Rússia, enquanto outros dirigem seus nexos com a União Europeia, sobretudo com a Alemanha. No entanto, isso não impede que ambos os blocos estejam sempre dispostos a vender-se ao melhor comprador.

Com isso, dependendo de qual setor da burguesia estiver no governo, a economia e a política do país oscilam entre a influência da Rússia, para onde exporta 25,6% de sua produção e importa 32,4% de seu consumo interno, principalmente gás natural, e a do “ocidente”, sobretudo da União Europeia e dos EUA, de quem recebe empréstimos principalmente para pagar o gás russo, e onde a oligarquia ucraniana possui ativos importantes. Dessa forma, a Ucrânia é uma semicolônia, onde o bloco imperialista UE-EUA e a Rússia de Putin disputam influência econômica e política e tentam saquear a maior quantidade possível de suas riquezas. Em outras palavras, o gás do leste e os créditos do oeste são os pilares em que se assenta a Ucrânia burguesa.

Em síntese, essas duas vias de exploração e opressão nacional por parte do imperialismo europeu e norte-americano e da Rússia, que é uma submetrópole regional que, apesar de também estar sendo colonizada pelo imperialismo tenta conservar a qualquer custo sua área de influência herdada da ex-URSS, estão na base da turbulência política na Ucrânia.

A atual crise econômica e o impacto das políticas entreguistas e neoliberais dos sucessivos governos foram deteriorando o nível de vida das massas, até atingirem níveis insuportáveis. Desde a dissolução da URSS em 1991, a Ucrânia passou de 51,4 milhões de habitantes para 45 milhões, fruto da queda da natalidade e do aumento da mortalidade, sobretudo devido ao desmantelamento da saúde pública. O êxodo ao exterior chega a quase 7 milhões de pessoas, que remetem ao país anualmente cerca de 3 bilhões de dólares. A pobreza, segundo o próprio governo, chega a 25% da população, sendo que a pobreza extrema flagela 16% dela, registrando-se os índices mais altos no oeste rural. Os trabalhadores do Estado estão há meses sem receber seus salários e o país não consegue pagar o gás que importa da Rússia. O desemprego chega “oficialmente” a 8% e o salário médio é de 332 dólares, quase três vezes inferior ao da Rússia e da Bielorussia, sem falar da UE.

Essas são as profundas bases sociais e econômicas que estão no fundo do descontentamento popular e impulsionam a mobilização atual, independente das questões sobre o relacionamento com a UE ou com a Rússia.

O acordo com a UE e a crise atual
 
A crise econômica mundial foi deixando mais tensas as relações de exploração nacional e a Rússia começou a aumentar o preço do gás vendido à Ucrânia.

Os preços altíssimos do gás natural (superiores aos que a Rússia cobra da UE) prejudicam os negócios da burguesia ucraniana e minam as finanças do Estado. Isso levou o governo a recorrer, desesperadamente, aos empréstimos em forma de eurobonus e empréstimos do FMI (a dívida ucraniana quintuplicou nos últimos 5 anos; até o final de 2014 a Ucrânia tem que pagar cerca de US$ 10 bilhões em serviços da dívida externa), o que empurrava a oligarquia burguesa e toda a política ucraniana cada vez mais para os braços do imperialismo.

Metida em um círculo infernal, não era raro que a Ucrânia pagasse as dívidas com a Gazprom [3], a empresa que exerce o monopólio do gás natural russo, com os empréstimos do imperialismo. Mas essa situação de pagar imponentes somas de dinheiro tanto para a Rússia como para os credores imperialistas levou o Estado à beira da falência e a burguesia ucraniana tomou a decisão de vender o país à UE, em troca de mais “ajuda financeira”. Mencionemos que, de acordo com a Standard & Poors, hoje a Ucrânia tem 50% de possibilidades de ir à bancarrota.

Foi assim que Yanukóvich começou a propaganda maciça em favor de um Acordo de Associação e Livre Comércio com a UE, esperando a entrada de dinheiro europeu. Mas o acordo preparado pela UE, que está passando por uma crise brutal conhecida por todos, não garantia o financiamento esperado pelo governo e nem dava à Ucrânia o direito de pertencer a esse bloco econômico continental. Só garantia, para os imperialistas europeus, o mercado interno ucraniano e a possibilidade de aprofundar o saque, quase sem nenhuma medida compensatória.

O regime russo, vendo a possibilidade de perder bruscamente sua influência na Ucrânia, inclusive sua base militar em Sebastopol, Crimeia, fundamental para a presença militar de Putin no mar Negro, começou a pressionar mais ativamente o governo ucraniano. Ofereceu reduzir em 30% o preço do gás e outorgar um empréstimo de US$ 15 bilhões, com o único objetivo de manter a Ucrânia dentro de sua “órbita de influência”. Da mesma forma, Putin redobrou seus esforços para incorporar a Ucrânia na chamada União Aduaneira, que é comandada pela Rússia e inclui o Cazaquistão e a Bielorussia.

Em meio a essa situação de extrema pressão por parte de Putin, em 21 de novembro de 2013, Yanukovich, contra toda a propaganda precedente, negou-se a firmar o acordo com a UE, o que provocou as primeiras manifestações, a ofensiva da oposição burguesa pró-ocidente e toda a crise atual.         

O caráter do processo
 
A imprensa internacional informa com insistência que o objetivo das manifestações é exigir a entrada da Ucrânia na UE. A propaganda russa e seus difusores da esquerda castro-chavista também insistem nesse assunto e agregam o fato de que as manifestações estariam sendo dirigidas por “fascistas” financiados pela UE e pelos EUA para “orquestrar um golpe de Estado” contra Yanukovich e acabar com “a integração da união fraternal de povos da antiga URSS” [4].

É verdade que existem ilusões em amplos setores de massas, sobretudo na Ucrânia ocidental, de que uma aproximação com a UE poderia ser uma solução à sufocante situação econômica e uma alternativa “mais democrática” contra o bonapartismo da brutal oligarquia governante. No entanto, devemos entender que essas ilusões e o engano por parte de um setor de massas em relação à UE tem, como vimos, uma base muito concreta, que é a opressão histórica por parte da Rússia e o ódio que sentem em relação a Putin, que veem, com razão, como o tirano russo que encarna os séculos de exploração, humilhações e abusos contra o povo ucraniano.

O ódio ao opressor russo é progressista; o erro (alentado pela oposição pró-ocidente e o imperialismo) está em pensar que um acordo de “livre” comércio com a UE seria a solução para tantos anos de exploração.

Também é certo que a oposição burguesa e pró-imperialista, expressa no partido Udar (Aliança Democrática Ucraniana Pela Reforma), do ex-boxeador Vitali Klitschko; o partido pró-UE Batkivschina (A Pátria) da ex-primeira ministra Julia Timoschenko e atualmente liderado por Arseni Yatseniuk (a quem Yanukovich ofereceu ser primeiro ministro quando Azarov renunciou) e setores abertamente fascistas, como o partido Swoboda (Liberdade), liderado por Oleg Tiagnibok (que tem aproximadamente 10% do eleitorado), participam e tentam controlar os protestos em Maidán, com o beneplácito aberto dos diplomatas europeus e norte-americanos.

Existem também, na praça e na ocupação de edifícios públicos, grupos de ultradireita e xenófobos, agrupados no chamado Pravy Sektor (Setor de Direita), que se aliaram a várias organizações, também ultranacionalistas, de veteranos da campanha soviética no Afeganistão (1979-1989), para “proteger” os acampamentos na Maidán.

Andréi Tarasenko, um dos líderes do Setor de Direita, pertence a uma organização chamada O Tridente de Stepán Bandera, em memória ao líder rebelde do Exército Insurgente Ucraniano (UPA) que lutou contra as autoridades soviéticas durante a Segunda Guerra Mundial e inclusive na década de 1950. Tarasenko diz que o Setor de Direita baseia-se em “princípios do cristianismo tradicional da Ucrânia e na ideologia do nacionalismo ucraniano”. Declaram-se também antirrussos (“porque os russos não são europeus”) e anticomunistas. Apesar de se oporem ao governo de Yanukovich e à entrada na UE (uma “estrutura supranacional” que, segundo Tarasenko, pretende a “desnacionalização” e a “descristianização” da Europa), defendem uma estratégia xenófoba de sociedade pautada por “uma Lei superior, a lei de Deus e a lei da Vida Cotidiana da Nação Ucraniana”. Esses grupos também estão contra a eutanásia e os matrimônios entre pessoas do mesmo sexo, porque “para o cristianismo a sodomia é um pecado que deve ser castigado”[5].

Sendo profundamente reacionárias, tanto a ilusão na UE como o caráter das direções do movimento na Maidán, defendemos que a esquerda não pode confundir esse caráter reacionário e pró-imperialista da direção do processo com o caráter do processo de conjunto.

Opinamos que o processo de mobilizações que agita a Ucrânia atualmente é progressista, apesar de sua direção e de inúmeras outras contradições. Tem um curso progressista porque enfrenta um governo ultrarreacionário e bonapartista, repressor e entreguista como o de Yanukovich, e porque enfrenta, embora de forma distorcida pela propaganda pró- UE e as confusões das massas nesse sentido, a histórica opressão russa sobre a Ucrânia.

Ainda que no início do processo o eixo das mobilizações tenha sido o repúdio à suspensão do acordo com a UE, a dinâmica da mobilização e a brutal repressão por parte de Yanukovich fizeram com que o centro dos protestos passasse a ser a queda do governo e o fim das medidas repressoras, algo claramente progressista.

Esse curso acentuou-se depois da aprovação das “leis ditatoriais”, análogas às que reinam na Rússia de Putin, aplicadas por Yanukovich, o que acabou sendo um tiro pela culatra para o governo. Essa afronta e a resposta do movimento de massas abriram um novo momento no desenlace da situação. Os protestos iniciais, em que predominavam estudantes universitários e setores de classe média, foram dando lugar à incorporação de mais setores de trabalhadores, expandindo-se de Kiev para outras cidades, algumas no leste do país.

Diante da ofensiva bonapartista, os ucranianos responderam com novas manifestações maciças e cada vez mais radicalizadas, com confrontos ferozes com a polícia e a ocupação de prédios públicos [6]. E a exigência ilusória da “euro-integração” passou a décimo plano, sendo que o eixo atual é Fora Yanukovich! [7]

Os acontecimentos atuais, se antes geravam dúvidas e confusão, agora mostram claramente que o desejo dos ucranianos é ajustar contas com o governo que levou o país à falência e que despreza o povo abertamente. Por outro lado, o governo ficou praticamente paralisado e incapaz de aplacar a raiva popular, perdendo cada vez mais o controle do país.

Por tratar-se de um processo cujo sentido é essencialmente progressista, é fundamental que todas as organizações que se dizem de esquerda e o movimento operário e social de todo o mundo expressem seu apoio e solidariedade à tenaz luta do povo ucraniano. É preciso combater e denunciar o papel reacionário cumprido pelas direções do movimento da Maidán, mas a partir de uma localização de dentro do processo. É necessário o apoio da esquerda, pois uma queda de Yanukovich provocada pela mobilização popular seria, sem dúvida, uma importante vitória política, que aprofundaria a crise do regime e seria um passo valioso para a estratégia de tomada do poder pela classe operária e o povo.

O castro-chavismo apoia Yanukovich-Putin
 
Infelizmente, como já dissemos, esta não é a visão da maioria da esquerda. A propaganda oficial de Yanukovich e, sobretudo, a russa, absolutizam as ações da ultradireita. Quando se referem aos manifestantes, os jornais russos se enchem de frases como “fascistas”, “membros de bandos criminosos”, “vândalos”, “organizadores de pogroms”, “radicais”, “grupos ultranacionalistas” ou “golpistas”. Os protestos são apresentados como fruto de uma “conspiração da UE e dos EUA”, e a esquerda internacional, em sua maioria, caiu novamente nas malhas desse discurso nada original.  

É o mesmo discurso usado por Assad e Putin, com todo o castro-chavismo fazendo coro, na guerra civil síria. Nesse caso, a ditadura tenta apresentar todos os rebeldes que lutam pela queda do regime, sem distinção, como “terroristas” e “jihadistas”, valendo-se da presença de grupos ligados à Al Qaeda, como o Estado Islâmico do Iraque e Síria e a Frente Al Nusra. No caso ucraniano, Yanukovich e Putin utilizam o elemento (real) da presença de setores pró- imperialistas e de ultradireita nas manifestações para deslegitimar e debilitar o processo de conjunto.

Opinamos que, ao contrário do que defende a maioria da esquerda, a melhor forma de combater os grupos fascistas como Swoboda e o Setor de Direita é justamente intervindo nas mobilizações para construir, em seu seio, uma alternativa independente e de classe, que combata tanto o governo entreguista e pró-russo de Yanukóvich quanto a oposição burguesa e a extrema-direita, que querem atar ainda mais o país aos ditames do imperialismo europeu e que, se as mobilizações chegarem a ameaçar seriamente a dominação capitalista, não terão pudor em concordar com uma “saída negociada” com o próprio Yanukovich.

A tarefa não é negar, mas disputar a fundo o processo de mobilizações da Maidán. Contra a extrema-direita, que quer dar à mobilização um sentido nacionalista-xenófobo, devemos opor uma política de aprofundar a luta incorporando a classe operária organizada, a juventude precarizada e sem futuro, as mulheres e a esquerda em geral. É necessária uma política de democratização do movimento e de criar, inclusive, organismos de auto-defesa contra a repressão, desmentindo o discurso dos fascistas com o qual tomam para si a tarefa (que ninguém votou) de “defender a praça e os protestos”.

Com a esquerda omissa ou contra a mobilização em Maidán se faz o jogo do governo de Yanukovich, da opressão nacional exercida pela Rússia e também dos grupos pró-imperialistas e de extrema-direita, pois deixa-lhes o caminho livre para levar esta heróica luta das massas à derrota segura.

O único antídoto para o crescimento da ultra-direita é uma luta tenaz pela entrada em cena da classe operária, com suas organizações e métodos, dentro da Maidán, a partir da construção de um terceiro campo que apresente um programa claro para o país, sob a perspectiva dos trabalhadores.

Participar na Maidán com a perspectiva de construir um terceiro campo de classe contra o governo de Yanukóvich, a UE e a submissão à Rússia!
 
Sintetizamos assim nossa posição:

1.      Participação ativa nas mobilizações da praça Maidán. Total solidariedade com a luta do povo ucraniano em sua luta contra o governo assassino e entreguista de Yanukóvich e contra a opressão histórica russa.

2.    Nós, revolucionários, devemos intervir no processo propondo claramente as bandeiras de Abaixo o governo de Yanukovich! Nem União Europeia, nem submissão a Putin! Nenhuma “saída negociada” com Yanukovich!

A solução não está em entrar na UE (onde o destino imediato é a tragédia social que vemos na Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda) nem apoiar os oligarcas que estão saqueando o país, sejam “opositores” ou do governo, nem nos acordos com a Rússia.

Ao mesmo tempo, o movimento deve repudiar qualquer tentativa de negociar “por cima” um possível “governo interino” integrado pelos atuais governantes com membros da oposição de ultra-direita. A saída está na derrota do governo pela força das ruas.

3.   Pelo fim imediato da repressão às mobilizações: Nenhuma intervenção militar no processo! Castigo aos repressores! Liberdade para todos os trabalhadores e lutadores presos!

4.   Estamos pelo desenvolvimento e a posterior centralização de comitês populares a partir dos grupos que existem na praça Maidán. Que sejam esses comitês democráticos que organizem maciças assembleias para decidir os rumos da luta.

As propostas políticas e de autodefesa devem ser decididas em assembleias, para limitar as ações dos grupos neofascistas. Esses comitês e assembleias na praça seriam um bom ponto de partida para a formação de comitês por locais de trabalho, de estudo, por bairros etc., completamente independentes de qualquer tipo de organização burguesa.

5.     O movimento da Maidán deve ter uma política de atrair o movimento operário para a luta contra o governo, incorporando reivindicações como o aumento geral de salários, a redução da jornada de trabalho e o emprego digno, com salário igual para trabalho igual para todos e todas.

6.    Pela imediata convocatória de uma Assembleia Nacional Constituinte, democrática, livre e soberana, para decidir sobre as relações com a UE e com a Rússia. Nesse sentido, nossa posição parte da luta por uma Ucrânia independente e soberana. Por isso, é necessária uma Assembleia Constituinte que rompa os laços políticos e econômicos com o imperialismo (UE e FMI) e com a histórica dominação russa: Abaixo os pactos com a UE e com a Rússia! Não ao pagamento da dívida externa com a Rússia e a UE/FMI!

7.     Mas, para que essa Assembleia Constituinte seja realmente democrática e soberana, não pode ser convocada pelo governo oligárquico atual de Yanukovich nem pela oposição pró-imperialista e a ultradireita. O único governo que pode garantir uma Assembleia Constituinte livre e soberana, para conquistar a independência do país e nacionalizar todas as riquezas (fábricas, terras, bancos, meios de transporte) a serviço das necessidades do povo trabalhador, é um governo operário e popular, apoiado nas organizações democráticas da classe operária e do povo pobre.

8.    Só um governo operário e popular será capaz de garantir a independência nacional da Ucrânia, a nacionalização da economia, a vigência das liberdades democráticas, a revolução agrária, o pleno emprego e a melhoria real das condições de vida do povo, expropriando os oligarcas, o imperialismo, a oligarquia russa e colocando toda a economia a serviço do país. Que o povo seja o dono de todas as riquezas do país e não um punhado de milionários vendidos à UE ou à Rússia!

9.    Para concretizar a luta por um governo socialista dos trabalhadores é indispensável que, no calor da luta atual, criem-se as bases e se construa um partido marxista revolucionário, operário e internacionalista, que dispute a direção política das mobilizações no sentido do combate pela revolução socialista internacional.

Tradução: Cecília Toledo


[1]Ver: http://www.lavanguardia.com/internacional/20140126/54399582462/maidan-extiende-kiev-toda-ucrania.html
 
[2]Ver: http://internacional.elpais.com/internacional/2014/01/31/actualidad/1391168402_796348.html
 
[3]A dívida da Ucrânia para com a Rússia pela compra de gás chega a aproximadamente 3,3 bilhões de dólares.
 
[4]Como exemplo, ver a declaração do PC da Armênia: http://jscomin.blogspot.com.br/2014/01/en-ucrania-el-eurofascismo-no-pasara.html
 
[5]Ver entrevista em: http://internacional.elpais.com/internacional/2014/02/07/actualidad/1391782485_090616.html
 
[6]Para ver uma mostra da coragem dos manifestantes em seus confrontos com a polícia, convidamos os leitores a ver este vídeo: http://www.abc.es/internacional/20140126/abci-video-brutal-paliza-manifestantes-201401261710.html. E estas fotos sobre “a batalha de Kiev”:http://www.malgusto.com/cosas-del-mundo/la-batalla-de-kiev-fotos-del-conflicto-en-ucrania/#more-62880
 
[7]Segundo dados de G. Kriuchkov, membro do CC do Partido Comunista Ucraniano, a popularidade de Yanukóvich caiu de 30,8%  para 10,9% e da Rada, de 14,2% para 4,6%. Diz também que 82,7% dos ucranianos consideram que o governo não resolve os problemas sociais e mais de 68% está convencido de que o governo não defende os interesses nacionais nem reforça a unidade e a concórdia na sociedade.  Ver:http://prensapcv.wordpress.com/2014/01/20/pc-de-ucrania-que-fuerzas-politicas-estan-detras-de-maidan/

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